A abstenção eleitoral e a necessidade da campanha permanente

Carolina de Paula



Em um mundo ideal todo cidadão brasileiro olharia com orgulho para o seu título – ou e-título – eleitoral e faria uso do mesmo a cada dois anos. Não é novidade que a eleição, e particularmente o ato de votar, se transformou em um fardo para uma considerável parte dos brasileiros. Ainda que saibamos disso, causou espanto o alto índice de eleitores que resolveram não fazer uso do seu título na nossa mais recente eleição: 29,5% do eleitorado brasileiro não foram às urnas em municípios que tiveram segundo turno. Já no primeiro turno o índice foi um pouco menor, 23,1%.



Sem dúvida, a pandemia da Covid-19 contribuiu para o salto do crescimento da abstenção na comparação aos anos anteriores. Em outros países que tiveram eleição o fenômeno também foi visto, na França, por exemplo. O presidente do TSE, ministro Luís Roberto Barroso, inclusive comemorou o expressivo índice de eleitores que compareceram às urnas. Contudo, avalio que a comemoração do ministro é bastante equivocada. A elevação da taxa de abstenção é a ponta do iceberg de algo mais grave e, a meu ver, um dos únicos aspectos que já podemos projetar para 2022: a dificuldade da campanha política no Brasil entrar na vida do cidadão comum. Não exclusivamente, mas sem dúvida há forte impacto das últimas alterações legais como a redução do tempo de campanha, a coibição para o uso de publicidade (regras para o tamanho de cartazes, por exemplo) e realização de eventos e comícios. Há quem possa contra argumentar que as mesmas regras foram aplicadas no pleito de 2018 e isso não impediu a “mobilização” do eleitorado, já que a política entrou na pauta de quase todos os grupos de whatsapp do país. Porém, tal mobilização – que na minha opinião foi algo essencialmente movido pelo ódio – foi o produto de uma eleição altamente polarizada, que é a exceção, e não a regra. Sem falar do efeito ressaca do impeachment e da Operação Lava jato que, bem ou mal, fazia a política entrar diariamente na casa das pessoas via mídia.



O que as pesquisas qualitativas mostraram esse ano, de modo bastante cristalino, foi que uma fatia do eleitorado que não é genuinamente interessada por política, mas também não é necessariamente apática ou descrente da democracia representativa, simplesmente não foi atingida pela campanha eleitoral. Ou seja, o processo comunicativo falhou. Em 2018 esse tipo de eleitor foi atingido, mas pela avalanche de fake news, brigas e memes que dominaram o pleito. Agora, retirado esse elemento, a campanha passou despercebida. Parece plausível especular que esse “tipo” de eleitor seja uma parte da massa daqueles eleitores que não foram às urnas em novembro.



O conceito de “tempo de política”, que os analistas gostam de enunciar quando vai ao ar o primeiro programa eleitoral no rádio e televisão, morreu. O desafio para os partidos e candidatos é imenso. E a saída, a meu ver, é uma só: a campanha permanente.

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