A "política do homem branco" vai nos levar à extinção

Hannah Maruci


Em primeiro lugar, é preciso explicitar a que nos referimos quando falamos em "política do homem branco". Estamos aqui nos referindo a uma estrutura histórica e politicamente determinante e não a indivíduos específicos e a suas ações e características descritivas. É inegável, porém, que a política brasileira foi construída e dominada historicamente por homens brancos, ricos, cis-gênero e heterossexuais e que essa realidade, por inúmeros acidentes e continuidades dessa mesma história, alterou-se pouco ou quase nada até chegarmos na política que conhecemos hoje.



Portanto, a política brasileira é ainda hoje baseada no clientelismo, na permanência de relações familiares e na manutenção do poder. Esse poder, historicamente excludente, beneficiou-se e cultivou um solo fértil para o aprofundamento do racismo, do classismo e do machismo que fazem parte da estrutura da sociedade brasileira. Em outras palavras: a “política do homem branco" é uma política que se fortalece da extinção ao mesmo tempo que a promove. Extinção da pluralidade, extinção da diferença, extinção da alternância do poder.



Dessa forma, a arena legislativa, que deveria representar a multiplicidade de interesses da população, revela-se um latifúndio monocultor, que produz sempre os mesmos frutos. Vale mencionar, como nos lembra Anne Phillips, que "Quando um grupo é consistentemente sub-representado, algum outro grupo está obtendo mais do que o que lhe corresponde"[1]. Essa frase se traduz facilmente em números quando olhamos, por exemplo, para a Câmara dos Deputados: 85% dos eleitos são homens e 15% mulheres, sendo destas apenas cerca de 2% mulheres negras. E esse é ainda o melhor cenário, em termos de composição, que já tivemos na história do Brasil.



Os últimos meses trouxeram os resultados dessa paisagem política praticamente heterogênea. O que veio à tona é um Legislativo que legisla em benefício próprio e que se debate para não abrir mão de nem um centímetro desse poder mantido ao longo dos séculos. Uma reforma trabalhista que retira direitos dos trabalhadores. Uma legislação ambiental que incentiva e legaliza o desmatamento. Uma reforma eleitoral que não aprofunda a democracia nem em forma nem em conteúdo. Tudo isso em meio a uma crise sanitária extremamente mal gerida, com escândalos de corrupção trazidos à tona por uma CPI, a queimadas na Amazônia, a uma iminente crise hídrica, a disseminação da fome, do desemprego, da miséria.



É essa a tal "política do homem branco". Da mesma forma, quando falamos na "política da mulher negra", embora entendamos que ela deva ser protagonizada efetivamente por mulheres negras, referimo-nos a uma política estruturalmente oposta à política que nos trouxe até aqui. Uma política coletiva, da pluralidade, da proporcionalidade. Não apenas das mulheres negras, mas de todas aquelas que foram sistematicamente e historicamente excluídas da política institucional e ainda assim permaneceram ativas na política de todos os dias. Mulheres, indígenas, negros, LGBTQIA+, pobres, marginalizados. É esse o Brasil, e não outro.



O Brasil precisa estar representado em nossas casas legislativas. Gostaríamos de poder dizer que a hora da mudança é agora. Mas não é. A mudança está atrasada em séculos. A questão que nos resta é: vamos lutar para sobreviver ou vamos assistir à nossa extinção orquestrada pelos mesmos de sempre?



[1] PHILIPPS, Anne. De uma política de ideias para uma política de presença? Revista de Estudos Feministas, ano 9, pp. 268-290, 2001. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbcpol/a/mwHFyKnvmctTFbxnxrJLGSD/abstract/?lang=pt


Créditos da imagem: REUTERS/Adriano Machado

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