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  • Haline Floriano

As novas eleições gerais na Bolívia: em busca da estabilidade política perdida

João Paulo Viana e Jorge Isaías Chavez Chavez

Há exatamente um ano, a Bolívia retornava à uma conjuntura de instabilidade política que parecia ter desaparecido do país por mais de uma década, desde o final do primeiro mandato de Evo Morales e a promulgação da Constituição Política do Estado Plurinacional, no ano de 2009. Paradoxalmente, o mesmo Morales, ator principal do processo de construção da inédita estabilidade política, econômica e social, após a equivocada insistência em concorrer ao quarto mandato presidencial, seria o grande responsável pela explosão dos protestos e a escalada da violência institucional que tomou conta do país andino.


Sob um forte argumento de fraude eleitoral – posteriormente não confirmada pelos organismos internacionais, um golpe militar retirou o líder indígena do poder e deu posse a segunda vice-presidente do Senado, Jeanine Añez (Democratas), senadora beniana, que assumia com a missão de preparar novas eleições presidenciais. Não obstante, a pandemia da covid-19 fez adiar por um ano o novo processo eleitoral, remarcado, posteriormente, por três vezes. Nesse contexto, no próximo domingo, dia 18 de outubro, os bolivianos irão às urnas eleger o presidente e a nova Assembleia Nacional, suscitando esperanças e expectativas de que a eleição possa contribuir diretamente para o fim da crise institucional que assola o país desde o ano passado.



Certamente, um dos principais acontecimentos durante a campanha eleitoral foi a retirada da chapa encabeçada pela presidente Jeanine Añez e a consequente renúncia do ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga pela aliança (coligação) “Juntos”. A unificação do voto na direita boliviana foi o principal argumento da retirada das candidaturas da atual presidente e do ex-presidente, considerando que um resultado fragmentado dos candidatos do campo conservador poderia favorecer diretamente o candidato masista Luís Arce, ex-ministro da Economia do governo Morales, que lidera todas as pesquisas de intenções de votos. Porém, nenhum deles teria possibilidades de vitória. Conforme as pesquisas, o apoio popular à candidata Añes girava em torno de 10%, enquanto o ex-presidente Tuto Quiroga contava com apenas 1%. Caso não alcançassem o mínimo de 3% perderiam a personalidade jurídica de seus partidos e alianças.



As últimas pesquisas nacionais realizada pelo IPSOS, Fundación Jubileo e CIESMORI, apontam para a vitória de Arce, superando o patamar de 40% de intenções de votos, com 10 pontos de diferença em relação ao segundo colocado, Carlos Mesa (Comunidade Cidadã), o que pelo sistema eleitoral boliviano asseguraria a vitória masista em primeiro turno. Em terceiro lugar nas pesquisas aparece a ex-liderança dos comitês cívicos do oriente boliviano, Luís Fernando Camacho, da coligação liderada pelo “Creemos”. Contudo, há um forte movimento direitista de oposição a Arce que defende no momento a candidatura de Mesa e reivindica a renúncia de Camacho , com o objetivo de unificar o voto contrário ao MAS e, assim, garantir um segundo turno. Importante ressaltar que quando analisadas as possibilidades de segundo turno, o cenário é favorável a Mesa, que surge como favorito contra Arce.



O paradoxo é que a oposição ao masismo nas eleições nacionais do ano passado, encabeçada pelo próprio Mesa, denunciava que “uma fraude descomunal” teria garantido a vitória de Morales no primeiro tuno, o que foi o evento catalizador para a retirada do ex-presidente do poder pelos militares e seu posterior exílio. Por essa lógica, outro candidato do MAS não deveria alcançar níveis tão elevados de apoio, o que não geraria a necessidade de unificar o voto do campo direitista contra o partido de Morales e Arce. Ou seja, vencer a legenda masista, ainda mais com Morales fora do jogo, deveria ser uma tarefa simples.



Nesse cenário ainda incerto, a aposta nacional é pelo retorno à paz social e à estabilidade. Não obstante, há quem defenda, de forma veemente, não permitir o regresso de Morales ao país e condená-lo, assim como acabar com a sigla do Movimento ao Socialismo. Propostas dessa natureza colocam em segundo plano o objetivo maior de conduzir o estado até a recuperação de sua economia, a retomada do desenvolvimento, e avançar diante de uma nova normalidade que exige uma proposta serena, concreta, lúcida e tangível, como plano de governo que conquiste o eleitorado e permita o retorno da estabilidade política e social à Bolívia.



No tocante ao Legislativo, não há dúvida de que a balança política será outra, diferentemente das maiorias avassaladoras conquistadas pelo MAS nos últimos anos. Ainda que haja uma tendência de vitória majoritária do partido de Morales, o MAS dividirá o parlamento com o crescimento da oposição composta, principalmente, por Comunidade Cidadã e Creemos, o que implicará ao poder Executivo a necessidade de maior abertura ao diálogo, para a construção de consensos, com o objetivo fundamental de garantir a governabilidade.

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