Bolsonaro e a crise com os governadores como válvula de escape

Carolina de Paula



A crise sanitária da Covid-19 no Brasil segue avassaladora nos meses de fevereiro e março de 2021. Temos assistido ao colapso do sistema de saúde em praticamente todos os estados, recorde de mortes dia após dia e uma campanha de vacinação lenta e ineficiente. A população continua pagando caro, com a própria vida, pela óbvia incompetência da gestão de Jair Bolsonaro. Como se não bastasse, a divulgação dos últimos dados relativos à economia foi terrível, mostrando uma queda no PIB em 2020 de 4 ,1% em relação ao ano anterior, a maior queda em 30 anos. As turbulências na direção da Petrobrás e a alta dos combustíveis deixaram o clima tenso entre os ainda fiéis apoiadores do mercado.



Assim, como “resposta à sociedade”, o governo federal, na figura do próprio presidente, por meio de seu canal no Twitter, resolveu “explicar à população” que o problema foi a incompetência dos governadores, que teriam recebido repasses bilionários para o combate à pandemia em seus estados. Em pleno domingo, dia 28 de fevereiro, a conta do presidente fez uma sequência de tweets listando nominalmente os repasses, estado por estado. O fato em si já teria sido ruim ao delegar responsabilidades e buscar se eximir dos seus próprios erros. Contudo, os dados apresentados são mentirosos, já que inclui na conta obrigações constitucionais de repasses, como o FPE (Fundo de Participação dos Estados), o FPM (Fundo de Participação dos Municípios), o Fundeb (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação), o SUS e os royalties. Com razão, os governadores ficaram revoltados. No dia 01 de março, dezoito governadores redigiram e assinaram uma dura carta criticando o comportamento do chefe do Executivo federal. Inclusive com o endosso de três de seus principais apoiadores, Ratinho Jr. (PSD), governador do Paraná, Ronaldo Caiado (DEM), de Goiás e Cláudio Castro (PSC), do estado do Rio de Janeiro.



Não é a primeira vez que o governo federal usa essa estratégia de comunicação, jogando para a opinião pública a culpa nas costas dos governadores e prefeitos. Em abril do ano passado, quando amargava uma desaprovação recorde (44% de acordo com a pesquisa XP/IPESPE) e os governadores – e até mesmo o sempre tão mal avaliado Congresso – aumentavam a popularidade positiva, o comportamento foi similar.



Contudo, o que vemos agora é uma ação coletiva dos governadores que já entenderam que, infelizmente, o presidente não entende o conceito de federalismo cooperativo. A estratégia da presidência é um nítido sinal de desespero, já que os dados das últimas pesquisas de opinião revelam que a tendência de avaliação negativa do trabalho de Bolsonaro é crescente. Se as ações concretas de responsabilidade do Executivo Federal para o combate à pandemia não começarem imediatamente não haverá válvula de escape que segure a queda.

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