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Cientista político precisa ouvir quem FAZ a eleição na ponta

Humberto Dantas



A agenda das eleições municipais tende a me atrair demais. Para além de gostar muito de olhar como funcionam e o que fazem os parlamentos das mais de cinco mil cidades, entendo como fundamental compreender como os partidos políticos se comportam municipalmente, principalmente porque a Ciência Política, por vezes de maneira descuidada e arrogante, tende a olhar mal demais a política na cidade. Por vezes, inclusive, tenta adaptar de forma descuidada certos achados nacionais às realidades locais. Quem conhece e estuda os municípios fica com aquela sensação de “vergonha alheia” quando vê senhores de verdades plenas falando.

Somar o tema de minha tese de doutorado defendida em 2007 – eleições majoritárias municipais – ao fato de em 2008 eu ter trabalhado em escritório envolvido em cerca de 30 campanhas para prefeito talvez explique esse interesse todo. Até hoje sou entusiasta da política em órbita local.

Essa semana tive a alegria de atender a juventude do União Brasil em mais um evento partidário para o qual sou convidado a falar algo sobre política. Somando rapidamente aqui, foi a décima legenda diferente que atendi nos últimos 15 anos. Isso, para mim, é motivo de grande orgulho.

Em parte de minha fala sobre as perspectivas para o pleito de 2024, disse algo que gerou um comentário de um jovem militante do Rio Grande do Norte que me deixou muito entusiasmado em termos de percepção e leitura de realidade. Eu dizia que em 2020 tivemos dois fenômenos que talvez se misturem a ponto de não sabermos ao certo o que foi o comportamento dos partidos políticos nas cidades naquele ano. De um lado, foi no último pleito municipal que debutou a proibição às coligações em eleições proporcionais. De outro, tivemos a pandemia, que colocou muita gente em casa a partir de março em um movimento de temor à doença. Ocorre que é exatamente até os primeiros dias de abril que os partidos têm como prazo a consolidação de suas presenças nas cidades e a filiação de seus postulantes aos cargos eleitorais. Acompanhe.

Em 2020 registramos a MENOR presença média de partidos por cidade do país em tempos recentes nos pleitos municipais. O que teria afugentado as legendas das disputas pelas vagas, sobretudo proporcionais? As dificuldades operacionais da pandemia, que impossibilitaram acordos que ocorrem na órbita das pessoalidades e proximidades sociais? Ou o fato de que com o fim das alianças proporcionais formais as contas para o lançamento de candidatos a vereador tiveram que ser refeitas? Grupos políticos teriam se desinteressado pelo controle de uma quantidade grande de partidos, ou simplesmente teriam deixado de utilizar tais legendas em suas estratégias. Se por um lado, juntar duas ou mais agremiações elevava o total de candidaturas por nominata, o fim das coligações impedia isso e geraria, pela minha hipótese, desinteresse em controle sobre vários partidos. As chapas locais dos grupos políticos passariam a precisar de número menor de partidos para se acomodarem em ambiente de concentração partidária. Interessante, não é?

Terminei minha fala sobre tal questão dizendo não ter a resposta precisa para este achado de 2020, o que poderia elevar as incertezas sobre o que teremos em 2024. Foi quando recebi o contraponto que entendi como muito interessante. Segundo meu interlocutor, as coisas podem não ocorrer exatamente da forma como eu imaginei. Na percepção dele, pessoas pouco capazes de causar grandes movimentos políticos nas cidades dominavam legendas, e no instante das composições políticas ofereciam seus partidos para as coligações pedindo em troca poucas vagas na nominata proporcional. A minha ideia de que em boa parte das vezes existem muitas pessoas querendo disputar o cargo de vereador para poucas vagas disponíveis precisa ser relativizada ou esquecida quando o assunto é a diversidade política de nossos municípios. Assim, ele continuou, os pequenos donos de micropartidos locais, que não chegam a ter força para aparecerem como grupos políticos potentes, se perderam na ideia do fim das coligações proporcionais. A troca de apoio partidário por vaga de vereador acabou, justamente, pelo fato de alianças não poderem mais absorver nominalmente diversidades partidárias em coligações proporcionais. Assim, concluiu ele, nem pandemia, tampouco a formação de chapas robustas, mas sim a dificuldade da imensa maioria dos partidos, localmente, montarem chapas completas capazes de baterem quociente eleitoral para eleger alguém. O fim das coligações proporcionais teria colocado em xeque um micro, por vezes nano, poder local de detentores de legendas.

Interessante, e fico pensando em como converter isso em bases de dados e análises. E ainda existe gente que segue fazendo política do ar-condicionado dos escritórios elegantes. Tem que correr mundo, amigo. Tem que lançar hipóteses e ouvir quem está ralando na ponta. E se fizer sentido, aí sim o cientista político tenta converter isso em pesquisa.

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