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CPI do MST ou a difícil arte de demonizar o novo MST

Araré Carvalho

Eclipsada pela CPMI (Comissão Parlamentar Mista de Inquérito) do dia 08/01, a CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) retoma seus trabalhos em agosto. Além de perder em relevância para a CPMI em andamento, outros fatores enfraqueceram o impacto da CPI do MST e podem levá-la para uma “season finale” insípida e longe de atingir os objetivos indiretos da sua implantação. A seguir elencaremos os pontos que definham a CPI do MST.

Primeiro ponto é que esse tema não é alvo novo de uma CPI, a atual comissão é a quinta que debate questões ligadas ao MST e movimentos de reforma agrária e, assim como as anteriores, tem uma forte tendência em ser pouco efetiva. O segundo ponto são os reais motivos da criação desta comissão. Ainda que toda entidade ou movimento social esteja sujeito ao escrutino público, é certo que o surgimento desta nova comissão parlamentar de inquérito atende muito mais à função de desgastar e atingir o governo e a esquerda de modo geral, do que propriamente averiguar a natureza das ações do movimento, que diga-se de passagem, está longe dos “áureos” tempos em que promoviam ocupações em massa por todo o país, não só a propriedades, mas a bancos e praças de pedágios. E uma CPI para desgastar o governo num momento em que ele tem melhora na aprovação, tem sua missão dificultada.

O terceiro ponto e talvez o principal, é que, como já pontuamos, o MST da atualidade está longe daquele que era facilmente demonizado nas décadas passadas. Ele passou, recentemente, por um “rebranding” onde ressignificou a sua imagem visando mudar a percepção do público sobre sua atuação. Já no período da pandemia de COVID, divulgou suas ações junto as cozinhas populares, que serviam almoço gratuito e fez uma forte propaganda sobre sua produção de arroz orgânico, inclusive, fazendo doações de grandes quantidades deste alimento. Ainda nessa ressignificação do movimento, ele se abre para pautas identitárias (não é raro ver o logo do movimento sobre bandeiras do movimento LGBTQIAPN+) e se torna mais popular entre celebridades, que começam a usar seus bonés em eventos públicos. Essa versão “soft” do MST, se torna um alvo menos óbvio, e mais difícil de ser vendido como um movimento raivoso de extrema esquerda.

O quarto ponto que enfraquece a CPI, é que a comissão começou com dois grandes tetos de vidro. O primeiro é o presidente da comissão, o tenente coronel Zucco (Republicanos/RS) que foi o deputado federal mais votado no Rio Grande do Sul, mas que, recentemente entrou na mira do STF (Supremo Tribunal Federal), que determinou que a Polícia Federal retome investigações sobre a suposta incentivo e patrocínio do parlamentar a atos antidemocráticos no Rio Grande do Sul.

O segundo teto de vidro está na relatoria do ex-ministro do governo Bolsonaro, Ricardo Salles (PL/SP). Salles que foi extremamente criticado pelo aumento do desmatamento na Amazônia e pelo desmonte de programas de preservação ambiental, ficou conhecido pela frase dita numa reunião ministerial onde apontava para a janela de oportunidade dada pela pandemia de COVID, uma vez que as atenções da mídia estavam voltadas para a crise na saúde. Na ocasião o então ministro sugeriu “ir passando a boiada e mudando todo o regramento e simplificando normas. De IPHAN, de ministério da Agricultura, de ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo.”. Além, é claro, do fato de ter entregado o cargo de ministro após o STF ter ordenado a investigação do suposto envolvimento do ministro num esquema de exportação ilegal de madeira para os Estados Unidos e Europa.

Por fim e não menos importante, uma CPI e/ou CPMI, é um palanque para os deputados e senadores se apresentarem, agregarem seguidores e conseguirem cortes para suas redes sociais. Não é à toa que a CPMI dos atos de 08 de janeiro, mesmo com os interrogados ficando em silêncio, duram horas. Todos querem ter a oportunidade de falar para um público grande que acompanham as transmissões ao vivo, e/ou recortar um trecho de sua fala e divulgar por toda internet. Bom, mesmo esse objetivo a CPI não conseguiu atingir do modo que pretendia. Pelo contrário, conseguiu um efeito reverso no único momento marcante dela até aqui.

Esse momento foi a resposta acadêmica e rebuscada dada pelo Professor José Geraldo de Sousa Junior, professor de direito e ex-reitor da UnB (Universidade de Brasília), à deputada Caroline Toni (PL/SC), em que acusa a falta de cognição dela como razão dela não entender a necessidade do movimento e da reforma agrária. Nas palavras da deputada, o docente a “ofendeu com categoria.” Esse vídeo viralizou em todas as redes sociais e foi notícias nos maiores portais do país.

Com a inelegibilidade do ex-presidente Bolsonaro (PL) e o avanço da coirmã CPMI dos atos antidemocráticos, o espaço da CPI do MST tende ser o único espaço de reunião da base bolsonarista, e território para promover o que chamam de “disputa de narrativas”. Se vão conseguir criminalizar o movimento e ligá-lo ao governo só saberemos nesta segunda temporada, mas nos parece cada vez mais difícil que o final nos surpreenda.

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