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  • Haline Floriano

Dança das cadeiras - cálculos individuais ou coletivos?

Humberto Dantas


As urnas da cidade do Rio de Janeiro foram abertas em 2016 e contabilizamos uma Câmara Municipal extremamente fragmentada. Com base no total de 51 vereadores da cidade, a partir de 2017 existiriam expressivos 19 partidos representados. É muita coisa. É fragmentação demais, que não deixa de expressar uma característica de nossa política.

Ao longo do último mês, entre o início de março e o último sábado, se abriu a questionável janela de transferência partidária. A despeito de não sabermos o que será das eleições desse ano em virtude da pandemia, se mantido o calendário do pleito de outubro, o prazo limite para a desincompatibilização de cargos públicos no Poder Executivo, principalmente, a filiação partidária e a utilização da janela se encerraram. E o que ocorreu no Rio de Janeiro?


Uma fantástica dança de cadeiras envolvendo 28 dos 51 vereadores atualmente empossados na casa. Isso mesmo: 55% dos parlamentares trocaram de legenda, de acordo com o Portal G1, apenas nesses trintas dias. Ademais: entre os eleitos, sete já não estão mais na Câmara. Cinco se tornaram deputados, sendo três federais e dois estaduais. Alguns surfaram ondas de incremento de votos impressionantes. Um se tornou vice-governador do Estado na chapa do eleito Witzel – Cláudio Castro, que tivera pouco mais de 10 mil votos em 2016. Por fim, o caso trágico, sem explicação e nitidamente capaz de envolver gente bastante graúda, de Marielle Franco, do PSOL, que foi assassinada em 2018. Somados aqueles que não estão mais na casa e os que mudaram de partido, temos um total de 35 nomes, ou seja: quase 70% do parlamento municipal.


Existe também gente que já havia trocado de legenda antes mesmo da janela, o que costuma ser feito em acordos no “fio do bigode”, caso aparente de Paulo Messina, que trocou o PSD pelo MDB no limite da movimentação, tendo sido eleito pelo PROS. A coisa que se mostra confusa é infinitamente mais complexa do que parece: ao longo do mandato, passou pelo PRB e pelo PRTB. Destaque para o fato de que o edil, em outrora no PV e em terceiro mandato, se vendia como novidade política com apoio de educadores. Ademais, assumiu a Casa Civil de Crivella em janeiro de 2018, e exonerou-se do cargo em 2019 para salvar o prefeito do impeachment depois de ter sido sorteado para fazer parte da comissão processante. Aqui, outro aspecto instigante: o MDB tinha uma bancada de 10 vereadores de acordo com o G1, e ficaria zerado não fosse o movimento de Messina, que chegou a ser tratado como todo-poderoso na Prefeitura, cogita disputar o cargo e navega em dívidas de acordo com a imprensa local.


Outro nome que chama a atenção é o de Carlos Bolsonaro, que sem clima no PSC poderia ter migrado para o PSL, mas não é mais nessa legenda que seu pai e irmãos estão. Assim, ao lado da mãe, a ex-vereadora Rogéria Bolsonaro, o mais votado candidato de 2016 disputará vaga na casa pelo Republicanos, o antigo PRB e partido do prefeito Crivella. Nesse caso, importante salientar que provavelmente sua passagem pela legenda deve ser curta, uma vez que seu clã está fundando a Aliança pelo Brasil. Tão curta quanto suas passagens pelo legislativo carioca, uma vez que até sala em Brasília o licenciado vereador tem ao lado do pai.


Diante de tamanha confusão, bastante comum a tantas outras casas legislativas do Brasil, a pergunta que fica é: como se comportarão os partidos políticos e mandatários de vagas nas câmaras a partir da ideia de que as coligações em eleições proporcionais estão proibidas? Vão tentar montar chapas onde brilharão ou procurarão chapas fortes que sejam encabeçadas por bons puxadores de votos ou candidatos competitivos às prefeituras? No Rio de Janeiro, de acordo com a contabilidade do G1, existiam 18 partidos representados em março e a janela se fechou com 20. Aqui parece que tem gente disposta a tentar a sorte em estratégias particulares. Mas o DEM, que provavelmente terá Eduardo Paes como nome forte à prefeitura, tornou-se o maior partido com sete nomes. O PSOL tem seis, apostando em Freixo, assim como o Republicanos, que estava com três cadeiras e dobrou. Nesse caso, quem, dentro de certos limites éticos e ideológicos, não gostaria de ter Carlos Bolsonaro e sua mãe puxando votos? Zico, ex-PTB, talvez tenha tido essa percepção, bem como Leandro Lyra, ex-Novo, cuja atitude de nova nada tem.


Perceba a miríade de estratégias e atitudes políticas em apenas uma Câmara Municipal brasileira. Já imaginou se em milhares de locais o número de legendas aumentar e as chapas se multiplicarem? O número de candidatos a vereador pode sair de meio milhão – como em 2016 – e facilmente dobrar. Ademais, veja como por vezes o partido faz pouco sentido na vida de políticos, sobretudo no âmbito municipal. Por fim: pense no quanto somos responsáveis por tudo isso. E se é difícil para um cientista político fechar um texto desse, imagina para um eleitor tomar decisões diante da urna.


Palavras-chave: Movimento Voto Consciente, Poder Legislativo, Poder Executivo, Eleições municipais, Rio de Janeiro, Câmara Municipal do Rio de Janeiro.

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