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  • Haline Floriano

Eleições municipais na Amazônia: as disputas majoritárias nas capitais da região Norte

João Paulo Viana, Breno Rodrigo Leite, Humberto Dantas, Ivan Henrique de Mattos e Silva, Raimundo França, Roberto Ramos e Rodrigo Dolandeli.


No presente artigo, sete cientistas políticos analisam a competição eleitoral nas capitais da região Norte. O objetivo é fornecer ao leitor um panorama geral da disputa para as prefeituras de Manaus, Belém, Porto Velho, Rio Branco, Macapá, Boa Vista e Palmas. A conjuntura eleitoral na maioria dessas cidades apresenta um cenário fragmentado e alto grau de competitividade, o que, de fato, sinaliza uma das eleições municipais mais disputadas dos últimos tempos.



Na capital do Amazonas e maior metrópole da região Norte, Manaus, a corrida eleitoral para a prefeitura nunca foi tão competitiva e aberta. Segundo as pesquisas, Amazonino Mendes (Podemos) lidera com 30% das intenções de voto, seguido por David Almeida (Avante), Ricardo Nicolau (PSD) e Zé Ricardo (PT) que estão tecnicamente empatados entre 13% e 10%. As chances de ocorrer segundo turno nas eleições da capital amazonense são reais, o que certamente provocará um realinhamento das forças políticas locais. As forças bolsonaristas estão bem distribuídas em quatro palanques: Cap. Alberto Neto (Republicanos), Chico Preto (Democracia Cristã), Cel. Menezes (Patriota) e Romero Reis (Novo). Assim, é possível que Bolsonaro participe do processo num eventual segundo turno. Um fato interessante de se destacar é o baixo engajamento do governador Wilson Lima (PSC) e do prefeito Arthur Virgílio Neto (PSDB) na campanha. O governador ainda não manifestou apoio a nenhum candidato; e o atual prefeito apoia Alfredo Nascimento (PL) que hoje tem 3% nas pesquisas.



Em Belém, capital estado do Pará, o deputado federal Edmílson Rodrigues (PSOL), que já foi prefeito da cidade entre 1997 e 2004, vem liderando com folga as pesquisas eleitorais desde o início da campanha. Edmílson conseguiu reunir os principais partidos de esquerda em torno de sua candidatura, incluindo o PT que indicou o candidato a vice-prefeito da chapa. O seu principal adversário é também deputado federal, José Priante (MDB), que vem se firmando na segunda colocação e conta com o apoio do governador do estado Hélder Barbalho, do mesmo partido, para conseguir levar a disputa ao segundo turno. A elevada rejeição de Zenaldo Coutinho (PSDB), atual prefeito de Belém, influenciou o PSDB a não lançar candidato próprio e indicar uma candidatura a vice na chapa de Thiago Araújo (Cidadania) que, de acordo com as pesquisas, não ameaça até o momento a segunda posição de Priante. Também não parece haver influência do bolsonarismo sobre a disputa municipal e as pesquisas de intenção de voto. Em resumo, a expectativa desta reta final da eleição em Belém fica em torno da confirmação nas urnas do apoio popular que Edmílson Rodrigues tem recebido nas ruas, o que levaria a esquerda comandar a capital do estado novamente depois de 16 anos.


Na capital de Rondônia, Porto Velho, a eleição apresenta número recorde de candidatos a prefeito. A alta fragmentação na disputa majoritária vem acompanhada de um elevado grau de competitividade. Conforme o Ibope, o atual prefeito Hildon Chaves (PSDB) lidera a corrida eleitoral, com cerca de 30% das intenções de votos. Em segundo lugar aparece o professor da UNIR, Vinícius Miguel (Cidadania), com 16%. A vereadora Cristiane Lopes (PP) e o advogado Breno Mendes (Avante), também seguem na disputa direta com Vinícius Miguel pela segunda posição. Apesar de Porto Velho ser uma das capitais onde o governo Bolsonaro possui uma das melhores avaliações, até o momento, é baixa a influência do presidente na disputa. Tanto o candidato do Avante, quanto o deputado estadual Eyder Brasil (PSL), que possui 1% de intenção de voto, reivindicam para si o apoio do Bolsonarismo. Importante mencionar o pífio desempenho nas pesquisas de partidos tradicionais, como PMDB e PT. Ao que tudo indica, a eleição em Porto Velho será decidida num acirrado segundo turno.



A disputa eleitoral para a prefeitura de Rio Branco, capital do Acre, traz componentes novos ao processo eleitoral de 2020 que são: candidaturas competitivas e qualificadas técnica e politicamente. No tocante ao bolsonarismo – à exceção da candidatura do PT/PSOL, mais diretamente, e do PDT/PSB, menos explicitamente, todos os demais candidatos associam-se à figura do Presidente Bolsonaro no intuito de angariar votos. Afinal, foi no Acre que Bolsonaro teve a maior votação relativa (77%) e seus índices de aprovação pessoal e do governo seguem altos. A eleição em Rio Branco é fundamental para os diversos grupos políticos que almejam candidaturas ao governo como são os casos do Senador Márcio Bittar (MDB) que apoia Roberto Duarte (MDB); do Senador Sérgio Petecão (PSD) que apoia Tião Bocalom (PP), do vice-governador Major Rocha (PSL) que apoia Minoru Kinpara (PSDB) e do Governador Gladson Cameli (PP) que apoia Socorro Neri (PSB). Vale ressaltar que essa é a primeira vez, desde 1990, que o PT não é um dos protagonistas da disputa pelo Paço Municipal. Nesse contexto, há três candidaturas bastante competitivas e com chances reais de irem ao segundo turno, Minoru Kinpara (PSDB/PSL) que tem aparecido em primeiro lugar nas pesquisas, Socorre Néri (PSB/PDT) e Tião Bocalom (PP/PSD) logo em seguida.



Em Macapá, capital do Amapá, o candidato favorito à prefeitura, segundo todas as recentes pesquisas, é Josiel Alcolumbre (DEM), irmão do Senador Davi Alcolumbre (DEM), atual Presidente do Senado, seguido pelo veterano João Capiberibe (PSB). Josiel conta, ainda, com o apoio do atual prefeito de Macapá Clécio Luis (sem partido), que, após romper tanto com seu partido, a Rede, como com seu principal padrinho político, o Senador Randolfe Rodrigues (Rede), decidiu apoiar o candidato do DEM à gestão municipal. Há, ainda, um elemento importante a ser considerado na disputa macapaense, pois diferentemente do que ocorre em boa parte das capitais do Brasil, em Macapá não apenas o Presidente da República parece ser um potente cabo eleitoral, como se verifica, no campo conservador, uma disputa ferrenha pela identificação estética e retórica com o bolsonarismo – em menor medida com Dr. Furlan (Cidadania) e Josiel Alcloumbre (que, todavia, já recebeu o apoio de Flávio Bolsonaro), mas bastante pronunciada nas candidaturas de Guaracy (PSL), Cirilo Fernandes (PRTB), Patrícia Ferraz (Podemos) e Haroldo Iran (PTC). A eleição macapaense deverá ser decidida em segundo turno.



Na capital de Roraima, Boa Vista, onze candidatos disputam a prefeitura, quatro deles com mais chances de vitória. Arthur Henrique (MDB), atual vice-prefeito, apoiado por Romero Jucá e Teresa Surita, que deixa o cargo em dezembro, após oito anos de governo, com mais de 80% de aprovação. Ottaci Nascimento (Solidariedade), eleito deputado federal em 2018, e que tem o apoio da maioria dos deputados estaduais, principalmente do presidente da Assembleia Legislativa, Jalser Renier, que enfrenta questionamento, há anos, na Justiça por desvio de recursos públicos. Shéridan Oliveira, (PSDB), deputada federal em segundo mandato, apoiada pelo governador, Antonio Denarium (sem partido) e pelos senadores Mecias de Jesus (Republicanos) e Chico Rodrigues (DEM), que está licenciado do cargo depois de ter sido pego, pela Polícia Federal, escondendo dinheiro na cueca em sua casa durante a operação Desvid-19. E Linoberg Almeida (Rede) que ocupa o cargo de vereador no município e agora quer ser prefeito da cidade. A eleição em Boa Vista conta ainda com as candidaturas, entre outras, do ex-deputado federal Luciano Castro (PL) que já disputou a Prefeitura em 2008, mas ficou em segundo lugar, e Antonio Nicoletti, deputado federal eleito pelo PSL em 2018. Embora Boa Vista seja, segundo pesquisa Ibope, a capital do país apontada com mais bolsonaristas, nenhum desses candidatos recebe o apoio do presidente Jair Bolsonaro. E pela alta fragmentação na intenção de voto, com os principais candidatos pontuando menos de 30%, é provável que Boa Vista tenha, pela primeira vez, segundo turno nas eleições municipais.



Menor capital da região Norte, Palmas, no Tocantins, não possui previsão legal de segundo turno. O total de eleitores inscritos na cidade a coloca como o único local desse grupo de municípios que não atinge 200 mil votantes. Tal característica é significativa para a compreensão das estratégias dos grupos políticos. Dos últimos sete pleitos, desde 1992, em três o primeiro colocado ultrapassou 50% dos votos válidos na cidade – 1992, 2004 e 2016 - e em 2000 e 2012 os vencedores atingiram mais de 49%. Ademais, em cinco dessas eleições os dois primeiros colocados ficaram para si com mais de 80% dos votos, superando 90% em 2000, 2004 e 2012, ou seja: são pleitos polarizados, característica teórica das eleições majoritárias de turno único. A partir de tal constatação, Palmas também se caracteriza por ver prefeitos eleitos que foram candidatos bem posicionados em eleições anteriores, e trata-se de uma capital governada, em sua recente história, por duas mulheres. Nilmar Ruiz foi a primeira, Cinthia Ribeiro a atual. Ela foi eleita vice em 2016 e herdou o governo do titular que perdeu as duas eleições recentes para governador no Estado – para além do pleito regular de 2018, Tocantins teve disputa suplementar naquele ano. Nas duas pesquisas mais atuais a prefeita saltou de 28% para 36% das intenções de voto de acordo com o Ibope de 22 de outubro. Ao que tudo indica a experiência de quem está no poder e a dificuldade de existir uma disputa aos padrões tradicionais favoreceu incumbentes. Cinthia deve ser reeleita, e em termos de votos válidos pode não superar os 50 pontos que resultaria num inexistente segundo turno, mas seguramente não deve ficar distante dos resultados comuns à realidade local. Ao todo a cidade tem recorde de candidaturas, com 12 postulantes, e o segundo colocado tem apenas 12%.

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