Jair Bolsonaro e a procura pelo ossinho com tutano

Carolina de Paula



Jair Bolsonaro (sem partido) fez bizarramente história ao ser o primeiro presidente no período democrático brasileiro que ficou sem partido político. A breve passagem, meramente eleitoral, pelo PSL de Luciano Bivar não durou nem dois anos. Desde 19 de novembro de 2019 o presidente não pertence a nenhuma legenda. O fato por si só é bastante questionável, tendo em vista que o conjunto de instituições políticas do país está fortemente ancorado em partidos. Se não temos “partidos fortes” na arena eleitoral, ou seja, a identidade, vínculo ou simples preferência por partidos pelos brasileiros é pequena – com a exceção do PT – e nosso multipartidarismo muitas vezes é tido como o estopim dos nossos problemas, “todo o restante” da política nacional passa pelos partidos. Começando pelo fato que nenhum cidadão pode disputar qualquer cargo eleitoral sem pertencer a uma legenda, passando pela chave fundamental do financiamento eleitoral que hoje em dia é praticamente 100% estatal até chegarmos as regras da divisão de poder dentro do Congresso para o comando das principais posições de liderança. Confesso que a mim causa espanto a possibilidade constitucional de um presidente continuar trabalhando tanto tempo sem partido, por mera vontade.



Porém, as eleições se aproximam e Bolsonaro precisa agora, com certa urgência, de uma sigla se quiser disputar a reeleição. Rumores da aproximação com o PP (Progressistas) ficaram mais forte depois da nomeação do senador pelo Piauí, Ciro Nogueira, ao comando da Casa Civil. O presidente da legenda – que já declarou no passado recente apoio e teceu diversos elogios a Lula (PT) – é curiosamente o autor de um Projeto de Lei (PL 1434/2021) que prevê o aumento do prazo mínimo (1 ano) para a filiação partidária antes do pleito, atualmente são necessários apenas seis meses. Ciro Nogueira conhece bem a importância da capilaridade partidária regional. Em sua saga pela escolha/aceite de uma sigla, Bolsonaro declarou que “ninguém quer entregar o osso para a gente, querem entregar só o casco do boi, nenhum ossinho com tutano querem dar para a gente”. Ou seja, por mais que rejeite os partidos, o presidente sabe que sem eles as dificuldades para 2022 serão imensas. As pesquisas de opinião apontam nitidamente o declínio da sua popularidade em todas as fatias do eleitorado, inclusive entre seu público mais fiel, os eleitores evangélicos. A inflação e o desemprego preocupam os brasileiros. A julgar por pesquisas qualitativas o contexto da antipolítica que pautou a eleição de 2018 parece ter arrefecido, e o efeito outsider também não poderá ser usado. Assim, sobra pouco da “estratégia” de 2018 para 2022.



Se o ossinho com tutano não for encontrado com considerável eficiência Bolsonaro já pode começar a pensar no que irá fazer em 2023. Vale lembrar que a carne está escassa no mercado, e os partidos políticos sabem muito bem o valor dela.



Créditos da imagem: Isac Nóbrega/Presidência/20-05-2021

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