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  • Haline Floriano

Malabarismo com dados públicos custa caro: custa vidas

Lara Mesquita


Na última vez que usei este espaço, em abril, falei sobre a importância do federalismo em tempos de pandemia, quando o presidente se recusava a reconhecer a gravidade do momento que atravessamos. Tinha me comprometido comigo mesma a voltar ao blog com um texto que não tocasse no nome do presidente, quem sabe falando sobre as eleições de 2020, discutindo o Fundo Especial de Financiamento de Campanha (cuja divisão entre os partidos acabou de ser divulgada pelo TSE e pode ser consultada aqui).


Naquela ocasião, eram cerca de 44 mil brasileiros contaminados e 1.200 mortos em decorrência da Covid-19, números ínfimos quando comparados aos de hoje. São mais de 775 mil casos confirmados e estamos batendo na casa dos 40 mil mortos. Provavelmente, todos que estão lendo esse texto conhecem uma ou mais pessoas que têm ou tiveram a doença.


Infelizmente não foi possível seguir conforme planejado. A postura do governo no enfrentamento da pandemia, e a tentativa recente de esconder os dados não me deixam pensar, falar ou escrever sobre outra coisa. No dia 08 de junho, segundo o Estadão, o presidente decidiu que quer que menos de mil pessoas morram, ou menos de mil mortes em decorrência da pandemia sejam divulgadas por dia. Não sabemos de onde o presidente tirou esse número mágico. Também causa preocupação imaginar os outros números que ele quer definir por conta própria, desconectados da realidade (crescimento do PIB, desemprego, desmatamento na Amazônia, indicadores de violência urbana?).


Uma decisão judicial obrigou o Ministério da Saúde a voltar atrás do malabarismo que estavam tentando fazer com os dados relativos à pandemia. Essa disposição, associada à gritaria geral, e a reação da sociedade civil e dos estados, que a exemplo do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (CONASS) imediatamente disponibilizou uma plataforma alternativa, obrigou os responsáveis pelo ministério a fazer contorcionismo na tentativa de convencer que nunca pretenderam fazer o que fizeram: omitir dados da sociedade e promover o descrédito dos dados públicos brasileiros.


Para quem não acompanhou de perto, ou nunca se atentou para isso: o que se divulga diariamente no Brasil (e no resto do mundo), são as mortes confirmadas que foram causadas pela Covid-19 nas últimas 24h. Muitas pessoas morrem sem que o resultado de seus exames tenham ficado prontos, assim essas mortes não são notificadas no dia em que de fato ocorreram, mas no dia em que se confirmou a doença. E por que isso é importante? Porque a maior parte da população brasileira, especialmente aquela que não tem plano de saúde, nem condições de pagar por um exame particular, só tem acesso ao exame quando internada no hospital. Antes disso prevalece a suspeita, raramente a confirmação da doença. E mais do que isso, os resultados dos exames demoram vários dias até serem divulgados. Aqui estamos falando dos exames que indicam que você está com a doença no momento, não dos chamados “testes rápidos”, que indicam se você já teve a doença, ou seja, você já se curou, não está mais doente.


O que o ministério da saúde queria fazer era: só divulgamos as mortes das últimas 24 horas que aconteceram e foram confirmadas que são decorrentes da Covid-19. Como não iriam divulgar o acumulado, as mortes que só confirmassem a contaminação em data posterior ao óbito sumiriam das estatísticas oficiais, e nós ficaríamos com a falsa sensação que a pandemia está arrefecendo.


O que o governo não entende, ou entende e é exatamente o que busca atingir, é que essas medidas minam a credibilidade nas estatísticas oficiais, deixam a população e a comunidade internacional em dúvida sobre o que de fato acontece no país.


Para concluir, essa é uma prática recorrente desse governo obscurantista. Começaram questionando o resultado eleitoral, depois tentou desacreditar os dados do INPE sobre desmatamento e queimadas na Amazônia. Questionou números oficiais do IBGE sobre o desemprego e agora quer acabar com a confiança nos dados de saúde.


A falta de solidariedade do presidente e do governo com as milhares de famílias que choram seus mortos é estarrecedora. Sobretudo se lembrarmos que uma ano atrás o presidente usava suas redes sociais para manifestar pesar pela morte de MC Reaça, que se suicidou após espancar a amante, que acreditava estar grávida. Nenhuma palavra foi dirigida a mulher espancada.


Espero que possamos sobreviver à pandemia e a esse governo, e que ainda exista país e dados públicos confiáveis para fazermos pesquisas e planejarmos melhores políticas públicas quando esse governo chegar ao fim.


Palavras-chave: Movimento Voto Consciente, Poder Executivo, pandemia, dados públicos, covid19, Ministério da Saúde, Bolsonaro.

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