O começo do fim

Graziella Testa



Iniciado o quarto ano de governo, o Presidente Jair Bolsonaro dá mais um sinal de isolamento e da dificuldade que tem para estabelecer relacionamentos profissionais duradouros. Nesse início de ano, dois representantes de grupos que compõem a base aliada de Bolsonaro se afastaram do capitão reformado. Um dos conflitos envolveu o oficial da reserva e Presidente da ANVISA, Antônio Barra Torres, depois que culpou a Agência e os funcionários pela aprovação da vacina em crianças. Em um outro movimento menos previsível, editou um decreto que diminui o poder de decisão do Ministério da Economia e, portanto, diminui o escrutínio sobre o fiel escudeiro.



Enquanto Barra Torres goza da estabilidade no cargo de Presidente de Agência, Paulo Guedes está a uma assinatura de perder sua posição. Por outro lado, Torres está sujeito a trâmites formais e escrutínio informal da instituição que integra a mais de trinta anos, a Marinha do Brasil. Sabe-se que os principais apoiadores do Presidente seguem sendo os militares, seja pelo posicionamento conservador, seja pela proteção corporativista que poupou o grupo das duras mudanças no mundo do trabalho desencadeadas pelas reformas trabalhista e da previdência. Barra Torres goza da estabilidade do cargo de mandato fixo, mas não fala em nome do grupo que integra.



Por outro lado, Paulo Guedes segue sustentando o apoio quase irrestrito que demonstra desde as eleições ao Presidente. Viu sua equipe derreter ao longo dos três anos e carrega o peso das consequências de uma pesada crise econômica. Agora, novo decreto publicado no Diário Oficial da União de hoje (13 de janeiro de 2022) institui que ações como remanejamento de recursos, alterações de despesas, abertura ou reabertura de créditos extraordinários, abertura de créditos especiais serão feitas pelo Ministério da Economia, mas “condicionadas à manifestação prévia favorável do Ministro de Estado Chefe da Casa Civil da Presidência da República”.



Em entrevista ao Broadcast Político, Élida Graziane, procuradora do Ministério Público de Contas de São Paulo, bem observou que o movimento contribui para maior politização do debate orçamentário. Cabe observar, no entanto, que em ano eleitoral e com o Presidente pouco popular, quem mais ganha com o movimento é o próprio Paulo Guedes, que não precisará responder diretamente pelos atos do Ministério da Economia com relação ao orçamento e poderá culpar a Casa Civil quando não quiser sofrer as eventuais consequências de liberação de recursos do orçamento secreto em ano eleitoral.



O ano começa com aliados se distanciando discretamente do impopular Presidente que, em 2021, comemorou o ingresso no PL, décima agremiação que compôs desde que se filiou pela primeira vez ao PDC em 1989. Jair Bolsonaro tem uma grande dificuldade em estabelecer relações políticas duradouras e estas são fundamentais em momentos de fragilidade eleitoral. Os músicos tocam e a tripulação se mobiliza, mas sabemos quem são os primeiros a deixar o navio.

2 visualizações0 comentário