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  • Haline Floriano

O impacto da “gripezinha” na avaliação do presidente

Carolina de Paula


O “histórico de atleta” do presidente Bolsonaro não foi o suficiente para imunizá-lo dos efeitos da pandemia. Ironias à parte, no dia 20 de março, ao nomear a pandemia de “gripezinha”, é provável que o presidente não fazia ideia do eminente impacto da mesma na avaliação de seu governo. Não me refiro aqui ao cenário pós demissão de seu ministro mais popular, Sérgio Moro, que saiu de um modo bastante turbulento do cargo de Ministro da Justiça, em 24 de abril, e levou embora o braço “lavajatista” da sua base de apoiadores. Desde 11 de março, quando a pandemia foi declarada, as pesquisas de opinião mostram que há tendência de crescimento da popularidade dos líderes políticos em quase todo o mundo, Bolsonaro é exceção.


Líderes que inicialmente minimizaram a gravidade do vírus, como o presidente dos EUA, Donald Trump, mas voltaram atrás, também conseguiram melhorar a própria imagem frente aos seus eleitores. A tarefa não é difícil, afinal, em períodos críticos prevalece a boa vontade por parte dos cidadãos ao perceberem que os líderes fazem reponsivamente o seu trabalho diante de uma grave ameaça a vida da população.


No caso brasileiro, a postura irresponsável do presidente ao incitar manifestações para findar precocemente o isolamento social, ficou bastante perceptível aos olhos dos cidadãos/eleitores quando se contrasta os elevados índices de aprovação dos governadores dos estados, estes, em sua maioria, agem alinhados à Organização Mundial da Saúde (OMS). Até mesmo o Congresso Nacional, tradicionalmente a instituição política de pior avaliação nas pesquisas de opinião, mostrou acréscimo de quase 11 pontos na avaliação positiva (dados de janeiro), chegando a 21% de “bom e ótimo” no dia 15 de abril (levantamento realizado pelo IPESPE/XP). Certamente, o papel ativo da Câmara dos Deputados e Senado na definição do auxílio emergencial (PL 1.066/2020) à população mais pobre teve influência na melhora de percepção do desempenho das Casas legislativas.

Com o sinal de alerta ligado, as redes mais radicais de apoio ao governo saem em ataque digital e presencial demonizando às instituições da democracia, pedindo o fechamento do Congresso e do STF. Contudo, se a postura do presidente não sofrer alteração – o que é bastante provável – o apoio popular tende a diminuir, pois dificilmente haverá em curto prazo melhora na economia e nas altas taxas de desemprego.


Por outro lado, é precoce prever o fim do governo Bolsonaro. O derretimento do apoio popular é somente um elemento da equação quando se discute a eminência de um impeachment. E nem mesmo este elemento está (ainda!) em patamar extremamente baixo. Porém, Bolsonaro depende fortemente de seus apoiadores, já que a sua habilidade de articulação junto ao Legislativo é bastante medíocre. E sabe-se que no Brasil sem maioria parlamentar há pouco sucesso presidencial, inclusive há elevação de riscos de sustentação do mandato.


O elemento mídia também não pode ser desprezado, e representa ponto crítico para o governo nessa pandemia. Em pesquisa no início do mês de abril, o Datafolha mensurou que os programas jornalísticos de televisão representam a fonte preferida de 81% dos brasileiros sobre o covid-19. E mais: 54% dos entrevistados confiam nas notícias que assistem. Já a mídia favorita do presidente, as redes sociais, representam 29% a fonte de informação preferencial, com confiança de somente 8% dos usuários. Não é por acaso que dia após dia Bolsonaro entra em conflito com a Rede Globo, emissora líder de audiência no telejornalismo e crítica do comportamento do presidente. Até o momento pré-pandemia este conseguiu balancear suas fraquezas através da comunicação direta com seu eleitorado, via redes sociais. Agora, com o abalo na sua popularidade esse método se mostra cada vez mais limitado. Até quando ele resistirá?


Palavras-chave: Movimento Voto Consciente, Poder Legislativo, Poder Executivo, Jair Bolsonaro, Bolsonaro, popularidade, impeachment, pandemia, covid19.

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