O impeachment, o centrão e o mito

Bruno Silva



Impeachment é um processo conduzido pelo Legislativo que tem como objetivo analisar se uma alta autoridade no âmbito do Poder Executivo ou Judiciário cometeu crime de responsabilidade e, portanto, deve ser impedida de prosseguir no exercício da sua função. O centrão é um conjunto de partidos que mantém um comportamento fisiológico no Congresso Nacional liderados por caciques políticos, sendo que estes possuem em comum com os parlamentares de suas siglas o apetite pela obtenção de recursos públicos, independente do governo da ocasião ou sua linha ideológica. Mito é uma narrativa de caráter fantástico de tradição baseada na oralidade, sendo que as histórias são protagonizadas por seres que encarnam forças da natureza ou capacidades sobrenaturais.



Essa é a atmosfera em que estamos mergulhados como sociedade hoje: parte dela, desejosa de que finalmente um – dentre a centena de pedidos de impeachment sobre a mesa de Lira – prospere, colocando um ponto final no mandato presidencial; a maioria, perplexa com o que algumas lideranças partidárias desse bolo amorfo simplificado sob o nome centrão tem feito para manter seu mando e influência junto ao governo federal e; uma minoria ruidosa que insiste em tapar o sol com a peneira e exaltar o suposto mito de pés de barro. Agonia define.



Na atual conjuntura, é muito interessante notar que, em meio ao maior desafio da nossa época, parte expressiva da sociedade brasileira espere mais do Congresso do que da Presidência. À luz da nossa tradição política representaria verdadeiro avanço em termos de maturidade democrática: os cidadãos pressionam mais o Legislativo, investem parte do seu tempo em frente às telas para assistir ao que acontece no âmbito de uma CPI e, de modo geral, todos conversam mais uns com os outros sobre os caminhos da política nacional. Mas na prática a teoria é diferente.



A descrença na capacidade da política em dar respostas plausíveis aos múltiplos desafios enfrentados por nós podem ser aferidos de diferentes modos. A avaliação do governo como ruim/péssimo está em seu pior patamar desde que Bolsonaro assumiu, chegando, de acordo com dados da pesquisa XP Investimentos no último mês de junho a 50% da população. Em queda livre, segue também a avaliação positiva do Congresso Nacional, a qual nunca foi das melhores: chegou a atingir, na situação mais aguda da pandemia no ano passado, em abril de 2020, a casa dos 21% de ótimo/bom e, hoje, chega a um dígito, apenas 8%. Soma-se a esse quadro desafiador outras percepções nada otimistas, uma vez que a maioria da população entende não estarmos no caminho certo em termos econômicos nem em relação à administração do país. Ademais, diante dos novos fatos que tomam conta da cena política, muitos entendem que a corrupção tem se intensificado demais no país e tende a aumentar.



Nesse clima, ontem, lideranças políticas de partidos que vão da esquerda à centro-direita e representantes de movimentos sociais protocolaram mais um pedido de impeachment na Câmara dos Deputados (apelidado de “superpedido” de impeachment) contra o presidente Bolsonaro. Em rápida manifestação pública, o presidente da Câmara já descartou qualquer possibilidade do pedido avançar nesse momento. O presidente, aproveitou o endosso de Lira para direcionar críticas em relação aos trabalhos da CPI da Covid no Senado. Os senadores oposicionistas vêm tentando fechar o cerco em relação aos depoentes na Comissão, sendo que estão convictos do cometimento de crime de prevaricação pelo presidente no caso de contrato da compra da Covaxin e, agora, desejam desemaranhar o fio para ver se há corrupção no Ministério da Saúde e qual a sua dimensão em relação à aquisição de outros imunizantes, como o da Astrazeneca.



Em um mundo paralelo aos problemas reais, as reformas estão paradas nas comissões do Legislativo, a agenda governamental avança a passos de tartaruga e, recentemente, na eterna síndrome reformista que paira as mentes dos parlamentares em Brasília, mais de 800 artigos compõem um projeto amplo de reforma política que liga nada a lugar nenhum. Conseguiram ressuscitar até mesmo o bendito do “Distritão” como solução de todos os nossos problemas representativos. Junto a ele, membros da tropa de choque do governo federal insistem ainda no tal do voto impresso, cujas lideranças do famoso centrão já sinalizaram rejeitar. Há quem tente trazer de volta certo ar de normalidade, mas a realidade pandêmica continua a se impor e a definir tudo quanto é feito nacionalmente. Um espectro ronda o Congresso e, a contragosto do governo, não é o do comunismo, mas é o da crise permanente que pode forçar lideranças políticas a reavaliarem a relação entre ganhos e perdas do apoio ao presidente. É uma questão de tempo e andamento das investigações da CPI que todos sabem como começou, mas ninguém imagina como irá terminar.



Nessa tríade do impeachment, do centrão e do mito há um misto de ansiedade e desespero na sociedade. Parafraseando o clássico do pensamento político brasileiro, Raymundo Faoro, para quem os donos do poder seguem numa eterna viagem redonda garantindo seus privilégios particulares junto ao Estado na medida em que mantém inalterado o estamento político, a “viagem redonda” parece chegar ao mesmo destino: muita fumaça, pouco fogo. Fala-se muito, pouco se avança na solução dos problemas das pessoas. Nunca se falou tanto em crise da nossa democracia. Enquanto isso, tudo aumenta: o número de contaminações e mortes, o preço do gás, a conta de luz, os alimentos, o desemprego e a infelicidade geral da nação. Até quando?

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