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O jogo acaba quando o juiz apita

Marcela Tanaka



Fazia uns 20 minutos em que olhava para essa página em branco, todos os tópicos para o texto de hoje estavam mapeados e prontos para serem postos no papel. Ideias soltas virando concatenação de pensamentos, estruturando frases, finalizando sequências argumentativas na tentativa de apresentar um ponto.




Mas sinto-me cansada. Melhor, exausta. Eu falaria hoje sobre a composição do novo Congresso (2023-2026) sob o ângulo da religião, tema do qual gosto muito e tenho certeza de que seria um texto interessante. Mas não achei justo com o momento que este texto está sendo escrito. Não é justo com o momento político. É final de campanha e, sinceramente, parece que estamos no meio de uma batalha.



De que adiantaria falar sobre o avanço dos religiosos, das guerras culturais, do espaço ocupado pelos braços mais organizados das maiores denominações evangélicas do país se estamos cansados? Quer dizer, eu estou. Cansada dessa batalha vil das últimas semanas de campanha. Independente do vencedor, todos perdemos. Perdemos um pouco de cidadania, humanidade e, lamentavelmente, nosso senso democrático e republicano - mas por gentileza, não confundam esse senso republicano com o republicanismo trumpista norte-americano. É confundir laranjas com qualquer coisa que não seja uma fruta.

Em todo caso, este não é só um texto de lamentação. Sigam comigo.



Nas últimas semanas, e também ao escrever neste momento, lembrei muito de Hannah Arendt e o conceito de banalidade do mal. O senso de normalidade que se colocou de maneira profusa nos tempos recentes, dos episódios mais absurdos, é reflexo do que perdemos. Estamos nos tornando apáticos. E, para cada vez que a corda se estende para além da sua delimitação, de pouco a pouco, passamos a conviver com o que antes estava fora dos limites.



Estou cansada? Estou. Não há dúvidas que muitos de nós estamos. Mas, já dizia o jargão futebolístico: o jogo só acaba quando o juiz apita. Portanto, embora cansada, e tendo mudado de ideia sobre esse texto há pouco, também me vejo na posição de defender a legitimação do regime democrático. Do poder do voto. Da confiança de que, embora fragilizada, nossa democracia deveria ser capaz de sobreviver aos ataques mais brutais às suas instituições. Ou não seriam? Se não forem tão resilientes, o que sobrará? Uma repetição de um passado não tão distante? A primeira vez como tragédia e a segunda como farsa?



Reconquistar a confiança no processo eleitoral, a legitimação do vencedor por parte do perdedor. Aquele emblemático telefonema ou mensagem de reconhecimento de vitória pode fazer uma diferença enorme. O seu comparecimento às urnas também. O seu respeito ao resultado, qualquer que seja ele, é imprescindível para o futuro do que chamamos de democracia.



Depois de encerradas as urnas, seguiremos. Bem, eu disse que não era apenas um texto de lamentação.



Créditos da imagem: REUTERS

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