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  • Haline Floriano

O time era ruim, mas gritaria de torcedor não resolve

Humberto Dantas


Quem já foi a um jogo de futebol sabe que partes da torcida, quando a situação não está boa, reclamam do time a ponto de alguns fanáticos gritarem: “me coloca no lugar de fulano que eu faço melhor”. Em casa não é diferente. Quando estamos assistindo a uma partida pela TV, ou mesmo a ouvindo pelo rádio, a chance clara de gol perdida pelo atleta vem sucedida pelo clichê do narrador: “ahhh, esse até eu, ou a minha avó de 80 anos, fazia”.

Será mesmo? Se o torcedor tirasse a roupa, vestisse o uniforme e entrasse em campo ele daria conta do recado? Se o narrador, sem fone e microfone, estivesse na área, ele empurraria a bola pras redes? E a vovó? É claro que não. Mas a convicção aqui é tão grande que esses dizeres populares tomaram conta de nosso imaginário esportivo. Até aí tudo bem. Nada mais inútil para o universo das coisas sérias que uma partida de futebol e seus personagens satélite.


Mas e quando isso se transporta para coisas fundamentais? Para ambientes elementares do universo da política e da gestão pública? Em meu último texto aqui no blog fiz duras críticas a uma “nova política” que não me parece tão especial assim. Fato que ainda estamos no começo, e que tenho esperanças de ver algo genial pela frente. Fato também que boas ferramentas de gestão, por mais que não mostrem, por enquanto, o caminho para um bom parlamento e para partidos melhores, podem contribuir para a organização de mandatos. Tudo isso eu entendi, e o debate com minha colega de blog Ana Paula, me ajudou bastante.


Contudo, não é sobre esse ponto que quero falar. Não quero voltar, hoje, nesse assunto. Não quero falar dos brasileiros e brasileiras que honrosamente arregaçaram as mangas, disputaram as eleições e conquistaram espaços nos parlamentos. Quero falar do Poder Executivo.


Faz cerca de um século, Max Weber nos disse algo sobre a ética na política e na vida pública. Mostrou que o espaço da ética da convicção é o parlamento, e o parlamentar é o tipo ideal de agente dessa natureza. Mas Weber era alemão. Pedir para um alemão ser extremamente convicto é como pedir para um morcego voar durante o dia. Ele pode até fazê-lo, mas fará com dificuldade e resistência. Importar esse pensamento e dizer para um parlamentar brasileiro que ele deve ser o paladino da sua convicção é como pedir para uma andorinha voar ainda mais pela manhã: a asa vai arder de tanto bater. Nossa natureza é convicta, e não é à toa que ouvimos tantas imbecilidades vindas dos mais diferentes parlamentos desse país – sempre justificadas pela liberdade constitucional de o legislador ter o direito de PARLAR. É claro que nesses lugares existe gente boa, equilibrada, centrada e preparada. Mas muitos alucinam na arte da estupidez convicta. Basta olhar o noticiário.


Eu, como vivo caçando isso, já acostumei os algoritmos da minha internet a me trazerem o que existe de pior para a realidade, e de melhor para o meu senso de humor. A mais recente, em grande escala, veio de Eduardo Bolsonaro e sua fala sobre a China e o Coronavírus. A asneira foi tão equivocada que lhe rendeu até apelido novo: Eduardo Bananinha, batizado pelo vice-presidente da República que afirmou que ele não pode ser ouvido, pois não tem cargo no governo – mas quase teve, em Washington. Não é mesmo?


Pois bem. Quando o Brasil elegeu Jair Bolsonaro como presidente da República, prestou atenção em seus 28 anos de convicção na Câmara dos Deputados? Se NÃO prestou, sua popularidade não caiu à toa em pouco mais de um ano no poder. Se prestou, nitidamente preferiu sua verborragia insana a qualquer outra das várias opções existentes naquele pleito. Mas perceba: Jair poderia ser um homem dotado de uma inteligência emocional tão significativa que o faria entender que atravessar a Praça dos Três Poderes era algo que exigia muito mais do que 50 e tantos milhões de votos e duas pernas. Exigia mudança de pensamento. Abandonar a convicção parlamentar para abraçar parte da responsabilidade executiva. Definitivamente, aqui não deu certo. Jair continua parlamentar.


E, definitivamente, o brasileiro apostou que o torcedor berrando da arquibancada tinha toda a chance do mundo de vestir a camisa 10 e conduzir o time. Ou que a avó do narrador, de bengala nas mãos, estaria suficientemente preparada para empurrar a bola às redes. Uma das maiores falácias informais que a democracia nos oferece é a sensação de que qualquer um, dado o desejo do povo, pode ocupar qualquer lugar. Mentira. E para arrefecer isso precisamos de partidos fortes e reconhecidos que mostrem à sociedade que preparo técnico e político são pressupostos essenciais aos bons governos, mesmo em instantes em que as arquibancadas parecem gritar contra. Convictos de plantão, aceitem: não é qualquer gritaria de arquibancada que pode assumir um país.


Palavras-chave: Movimento Voto Consciente, Poder Legislativo, Poder Executivo, Câmara dos Deputados, Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Bolsonaro, China, coronavírus, partidos políticos, democracia.

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