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O trabalho de unir dois Brasis não pode parar

Joyce Luz



Luiz Inácio Lula da Silva ganhou as eleições no último domingo. Com pouco mais de 60 milhões de votos, Lula superou seu próprio recorde e tornou-se não só o presidente mais votado, bem como o presidente vencedor da disputa eleitoral mais acirrada da história brasileira, pós redemocratização. Em um único dia, o futuro presidente do Brasil entrou para a história.



Apesar dos números importantes dessa vitória no jogo democrático, a batalha mais importante de Luiz Inácio Lila da Silva e da maioria dos brasileiros e brasileiras está apenas começando. Como Lula mesmo disse em seu discurso no domingo: “A partir de 1º de janeiro de 2023, vou governar para 215 milhões de brasileiros e não apenas para aqueles que votaram em mim. Não existem dois Brasis. Somos um único país, um único povo, uma grande nação.”. O maior problema, no entanto, será, justamente, o de encontrar o ponto de união ou de harmonia entre esses dois Brasis que atualmente (e infelizmente) nos permeia, sim.



Não se trata de um Brasil formado por diferentes opiniões políticas que, inclusive, servem de fonte e justificativa para a escolha de um Regime Democrático. Falo de um Brasil formado por cidadãos com princípios difusos e muito pouco conectados com os valores que uma democracia deve carregar. Falo de um Brasil onde só até às vésperas de um pleito eleitoral a Justiça Eleitoral já havia registrado mais de 2.000 denúncias de assédio eleitoral – entendido aqui como uma forma de coação a trabalhadores para votar em determinada candidatura. Falo de um Brasil onde uma Deputada Federal, representante do povo, figura pública, naturaliza o ato de sacar uma arma de fogo no meio de uma via pública para perseguir um suposto manifestante contrário as suas ideias. Falo de um Brasil, onde brasileiros e brasileiras se acham no direito de xingar eleitores nordestinos de “imbecis” e “jumentos”. Falo de um Brasil onde as pessoas negam que mais de 33 milhões de brasileiros e brasileiras passam fome diariamente. Falo de um Brasil onde homens ainda acreditam que mulheres são “fraquejadas” e que se fazem de vítima frente aos frequentes assédios que sofrem. Falo de um Brasil onde as pessoas preferem acreditar e se apegar mais às fakenews, do que acreditar e apoiar a produção científica do país. Falo de um Brasil onde negros morrem por serem “confundidos”, para não dizer julgados, com criminosos.



Falo de um Brasil onde a comunidade LGBTQI+ ainda não possui o direito de ocupar igualmente o mesmo espaço que a maioria das pessoas têm. Falo de um Brasil onde mesmo após os resultados de uma eleição, caminhoneiros e parte da população saem às ruas bloqueando estradas para reivindicar o retorno do autoritarismo.



Mas não nos deixemos enganar. Unir dois Brasis requer mais do que o trabalho de eleger um candidato. A gente precisa ir além. Unir dois Brasis requer o trabalho diário de construir, reconstruir e relembrar o porquê escolhemos a Democracia e seus valores. Unir dois Brasis requer o trabalho de formiguinha de construir pontes e diálogos. Requer o trabalho de defender e ensinar o valor da liberdade e o dever do respeito. Requer o trabalho de ouvir, conhecer e reconhecer que a realidade do outro nem sempre é condizente com a nossa realidade e que isso não torna a nossa ou a realidade do outro menos válida. Requer o trabalho de romper barreiras e pôr fim a tantos preconceitos. Requer o trabalho de respirar fundo manter a paciência e combater as fakenews. Requer o trabalho de ensinar que a finalidade da Democracia é gerar mais oportunidades para que aqueles que se encontram em situações sociais e econômicas bem piores do que a nossa. Requer o trabalho de ensinar para aqueles que não passam fome que quem conhece e vive com essa realidade não pode simplesmente esperar pelo dia de amanhã. Requer ensinar que o Estado democrático é laico e que por isso nossos representantes devem governar para todos e todas independente do credo ou da religião. Requer o trabalho diário de batalhar para que os brasileiros e brasileiras continuem a ter cada vez mais o acesso à importantes direitos como educação, saúde, trabalho, moradia, cultura e lazer. É por este e tantos outros motivos que volto a afirmar: unir dois Brasis requer mais do que o trabalho de eleger um candidato.



A maioria do povo que foi às urnas escolheu Lula porque acredita que ele possa fazer diferente e governar para os mais de 215 milhões de brasileiros e brasileiras que somos. Mas nessa conta de números, desigualdades e problemas que parecem infinitos Lula é só um. E para unir dois Brasis se faz necessário o trabalho e o esforço de muita gente. Que possamos, então, nos lembrar diariamente que as eleições nos servem de combustível periódico para reafirmar nossos valores e compromissos com a Democracia. Mas que a responsabilidade de garantir a disseminação de seus valores e de sua permanência deve ser encarado como um trabalho diário nos dois “Brasis” em que vivemos.

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