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Os três fantasmas das eleições passadas

Araré Carvalho



Em 2024 seremos cortejados por uma maré de candidatos a vereança. Mais de 500 mil pessoas devem se candidatar ao cargo de vereador por todo Brasil. É justamente aí onde o humor político involuntário, ou não, realiza a mais farta colheita.

Digo “ou não”, porque já faz um tempo em que o ridículo e o absurdo são usados como modo de angariar votos. Seja sobre a o manto de “votos de protesto”, ou sobre a justificativa de que pelo menos “são verdadeiros e dizem o que pensam”.

A despeito desta figura que espero que apareça com menos frequência nas próximas eleições, existem outros tipos de candidatos que aparecerão em grande quantidade no próximo pleito e que os eleitores devem ficar atentos.

Veja bem, não se trata aqui de deslegitimar qualquer tipo de candidatura, mas alertar ao eleitor para tentar olhar para além daquilo que é apresentado pelos almejantes a edis. Focar numa única causa, bairro ou radicalizar ideologicamente pode ajudar na eleição do candidato, uma vez que ele concorre a eleições proporcionais e não majoritárias. Sendo assim, não precisa agradar a todos, mas a um grupo suficientemente grande que lhe dê o número de votos necessários para se sentar numa das cadeiras da câmara municipal de sua cidade.

Olhar para além é necessário porque a função de vereador é muito importante, e demanda do candidato um conhecimento mais ampliado sobre políticas públicas, gestão, responsabilidade e governança.

Ok?! Mas, e o título do artigo? Quem são os três fantasmas das eleições passadas? Em alusão ao clássico de Charles Dickens “Um Conto de Natal, de 1843, onde o avarento Scrooge recebe a visita de 03 fantasmas, nós, eleitores, receberemos três tipos que nos são familiares. São eles: o candidato de bairro, o candidato ideológico e o candidato da causa única.

O candidato de bairro, munido com a frase “quem me conhece sabe”, “o amigo certo das horas incertas” (Roberto que cobre direitos autorais) ou o “amigo da vizinhança”, caso seja da família Parker, dirá que, se eleito, defenderá os interesses do bairro, o que é muito justo, visto que cada bairro tem suas demandas. Todavia, uma vez eleito, ele terá que legislar pensando na cidade como um todo, e poucas vezes terá de fato oportunidade de “fazer algo pelo bairro” que não esteja dentro do plano gestor do município.

O candidato ideológico é aquele que vai ainda investir da divisão política que toma o país há alguns anos. Aqui repousa grande parte dos candidatos religiosos também. O candidato ideológico será aquele candidato que se apoiará na figura do atual presidente Lula ou do ex-presidente Bolsonaro. Abusará de fotos com o ídolo e tomará para si as pautas defendidas pelos inspiradores. Grande parte do que prometerá está fora das suas atribuições legais. Defender a família e proibir conteúdos nas escolas, estarão na boca destes candidatos.

Por fim, o candidato de pauta única é aquele que mais tem crescido nas últimas eleições. E a causa que mais tem elegido candidatos é a causa animal. Geralmente, este candidato já vem fazendo um trabalho de resgate e acolhimento de animais. Publica isso em suas redes sociais e é reconhecido como referência no tema. Se eleito lutará pelo fim dos fogos de artificio com som e por um hospital veterinário público. De novo, uma causa justa. Porém, diante da complexidade da gestão de um município e das prioridades da população, é necessário saber o que este candidato pensa a respeito de outros problemas da cidade.

Para além da legitimidade de todos os candidatos, é necessário se aprofundar no que pensa, propõe e defende o candidato. Nesta última legislatura tivemos casos de votação de aumento do próprio salário de forma abusiva por todo país. Também votaram o aumento das cadeiras legislativas muito mais atendendo ao medo de ficar fora nas próximas eleições, do que pensando no aumento da representatividade. Muitos vereadores também aprovaram “orçamentos impositivos” que rendem repasses diretos para os vereadores para usarem como bem entender, fugindo de uma gestão democrática e reforçando um personalismo que só interessa a eles.

Se ficarmos só nas superfícies das candidaturas, não saberemos como eles se posicionam frente aos temas importantes para a gestão dos recursos públicos e das necessidades de nossos municípios. Pode até ser engraçado, ou podemos nos identificarmos com o posicionamento radicalmente ideológico ou com a causa única do candidato, mas, o que isso significará para os próximos quatro anos de legislatura?

 

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