“Projetos” e “ações estratégicas” no governo paulista

Cláudio André de Souza




O nome é oportuno: Secretário de Projetos e Ações Estratégicas. Isso porque nada é mais estratégico para João Doria desde 2016, quando venceu de forma inédita as eleições para prefeito de São Paulo em primeiro turno, que o Palácio do Planalto em 2022. Sob campanha tecnicamente perfeita, unindo a onda do gestor trabalhador não político ao antipetismo, o que se viu naquele ano também foi um volume imenso de votos brancos, nulos e abstenções. Os registros de opções inválidas entre os paulistanos equivaleram a 13% do eleitorado, e o não comparecimento a outros quase 22%. Somados, mais de um terço dos cidadãos não se posicionaram nominalmente. Isso não tira a legitimidade e a grandeza da vitória, mas aponta para algo a ser enfrentado por um mandatário. Doria deve ter sido advertido por alguém experiente sobre o fato de estar reinando em terra politicamente desgastada. Resultado: precisava ter sido perfeito em oito anos, ou ao menos em seis, para se lançar à Presidência. Mas o gestor foi político demais, e caiu nos braços da vitória – acalentadores e por vezes maliciosos, lembrando um velho filme sobre um inveterado jogador que dizia ser a vitória na primeira rodada de um cassino o mais inebriante dos venenos.



Seu governo na capital não foi incrível. Passou longe disso, e as urnas de um famigerado político que sequer completou dois anos no poder em 2018, já candidato vitorioso ao governo do estado, mostram isso. O problema é que no jogo da política ele também ganhou a segunda mão. Mas observe: no primeiro turno de 2018 foram “apenas” 26% dos votos na “sua cidade” de 2016, e na segunda rodada 42%, contra 58% de seu adversário Marcio França (PSB). João Doria, literalmente, não deixou boa impressão na capital. Para se ter uma ideia do que significa “jogar em casa”, a despeito das diferenças, França, ex-prefeito de São Vicente entre 1997 e 2000, fez 64% dos votos no primeiro turno e 73% no segundo em “sua cidade”.



Empossado nos Bandeirantes, Doria fez de seu secretariado uma extensão do ministério de Michel Temer, que deixava Brasília após a posse de Bolsonaro. Em pastas estratégicas, colocou gente com experiência nacional, trazendo nomes para a economia, a casa civil, os transportes metropolitanos e a educação. Nada que São Paulo não merecesse pela dimensão, mas a questão era entender o que isso significava. Um olhar acurado para o Estado ou um ensaio para Brasília?



A pandemia veio como um tsunami, e o governador de São Paulo mostrou habilidade: colocou a cara e enfrentou o problema de forma ousada e corajosa. Não fugiu do embate e das decisões difíceis, e utilizou-se de toda a estrutura do estado em benefício de seu governo, sobretudo para protagonizar, quase em primeira pessoa, com bons secretários como coadjuvantes, o segundo ponto central, a saber: o desenvolvimento de uma vacina contra o mal maior. Fosse a Corononavac o melhor imunizante do mundo e a história seria ainda mais brilhante, sendo indiscutível sua capacidade de salvar milhares de vidas. Doria passa a se vender como o “pai da imunização” e o estado de São Paulo lidera estatísticas de aplicação. Mas o governador provou de seu próprio veneno: protagonismo, marketing e aparição de mais geram rejeição e discursos contrários intensos. Ele estava em campanha, e isso ficou evidente.



Na tentativa de se firmar como a incorporação do Zé Gotinha, o governador paulista comprou briga com um “ex-aliado”. Bolsonaro fez pouco caso de Doria em 2018, e a chapa BolsoDoria trouxe à tona a pior característica de um político na terra das cordialidades e da desfaçatez. O governador paulista se serve e descarta pessoas facilmente, atitude típica do universo empresarial, cujo dono, por vezes, demite quem não lhe serve mais. O Lula da foto em seu escritório na Faria Lima virou o alvo número um para a vitória de 2016. A dupla Geraldo Alckmin e Marcio França que articulou sua chapa e bancaram seu nome na capital se tornou adversária em 2018, com Doria implorando colo para Bolsonaro, adversário de Alckmin. Fosse o presidente seu único desafeto e tudo seria mais fácil, pois dele poucos andam gostando. Mas em tempos mais recentes até as prévias do PSDB não serviram para sedimentar seu nome, pelo contrário, racharam de vez uma legenda combalida que em 2019 ele tentou emplacar como “Novo PSDB” – com a primeira palavra escrita em laranja. A debandada não foi pequena atrás de lideranças derrotadas em 2021, os grupos que não querem candidatura tucana ao Planalto cresce e as dissidências podem aumentar na janela partidária que começa no mês que vem – sobretudo porque no PSDB da Câmara vive uma horda bolsonarista enrustida. Doria, na política, protagoniza o que Beth Carvalho canta desde 1978 em “Vou festejar”, pagando com aparente traição a quem lhe deu a mão... No médio e longo prazo isso é comum na política, mas literalmente ele acelerou demais.




Assim, o governador paulista tem um desafio imenso que ainda não o tira da disputa ou impossibilita de forma absoluta seu sucesso. Mas prejudica bastante. De um lado inviabilizou qualquer chance de reeleição estadual, pois amarrou seu plano na entrega da máquina ao vice-governador Rodrigo Garcia, que vai tentar fazer o que Marcio França não conseguiu em 2018, e antecessores como Goldman e Lembo sequer tentaram – converter mandato herdado em fins de março em recondução. Por outro lado, é malvisto pelos paulistas como governador – 38% o consideravam ruim ou péssimo de acordo com Datafolha de setembro e dezembro de 2021, e apenas 24% o achavam bom ou ótimo. Ademais, nas pesquisas presidenciais, colhe rejeições superiores a 50% em estudos recentes. Assim, rejeitado pelo eleitorado, sacrificado pelo presidente da República em chacotas infelizes e distante de antigos aliados, tendo como adversário principal Lula, a pergunta é: como ganhar o pleito?

As nove pesquisas divulgadas em 2022 mostram que entre 65% e 71% do eleitorado votaria em Lula ou Bolsonaro. Apenas 2,3% em Doria com base na média dos estudos. Ele precisa vencer a rejeição, arrefecer a super aparição, reconstruir pontes, se gabaritar diante de outros partidos para se firmar como “terceira via” e fazer o eleitor se desfazer de Lula e Bolsonaro. Muita coisa em pouco tempo.




Para tanto, volte ao começo do texto, e vais descobrir onde entra Rodrigo Maia. Onde o ex-presidente da Câmara, absolutamente central para conter Bolsonaro quando encabeçou a Casa, e essencial para a reforma da previdência é o cara dos projetos e ações estratégicas. Qual seu papel? Depende: no governo ou na campanha? Na GloboNews, dia 08 de fevereiro pela manhã, em entrevista, estava anunciado como “coordenador nacional da campanha presidencial de João Doria”. Perfeito. De dentro do parlamento isso já seria estranho, mas sequer filiado ao PSDB e de posse de um cargo de Secretário de Projetos e Ações Estratégicas do Governo de um Estado? Estratégicos para quem? Sequer para o governo, muito menos para o Estado. Maia se presta a um papel público de ocupante de espaço oficial para fins eleitorais, e se isso não se encaixa em uso da máquina administrativa para fins de campanha, fica difícil entender o sentido da Lei 9.840/99. Lição final: o governador de São Paulo precisa separar, urgentemente, ambições pessoais de interesses públicos associados ao cargo que ocupa. Um gestor empresarial talvez tenha muito mais dificuldade para entender isso do que um político. Ganhar na primeira e na segunda rodada pode maltratar, dando ao gestor a sensação infinitamente maior de poder do que realmente ele tem. Estranho apenas que Maia, político nato na essência, na história e no DNA, se preste a isso... Por quê?



Créditos da imagem: João Doria para sua campanha ao governo do Estado de São Paulo. (Reprodução)

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