Se livre da sua loucura, 2018 tem que ter passado

Humberto Dantas



A “nova política”, asneira que encantou e tapeou muito inocente, é fenômeno que se espalhou por uma razão: odiamos o que deveríamos respeitar, e passamos a crer em respostas fáceis para coisas complexas e trabalhosas. Pois é. Agora, quatro anos depois do ápice do que se espera ter sido o frenesi da “nova política”, os “radicais do diferente” terão que se esforçar para explicar que “fazer política” de modo comum é legítimo. Isso envolve alianças, acordos, mudanças etc. Os discursos terão que se relativizar e o teste de paciência junto ao eleitorado será divertido. Quem sairá fortalecido das eleições de 2022? Uma horda que vai tentar explicar que certas coisas acontecem assim, e não são tão ruins quanto eles mesmos pregavam, ou uma nova turba de alucinados que vai radicalizar, falar em primeira pessoa e tentar mostrar que só esse ou aquele grupelho tem razão? Atenção a Sergio Moro nesse segundo grupo.



O que estou dizendo aqui em nada tem a ver com ideologia. A onda da “nova política” teve de tudo em 2018. Dos mandatos coletivos à esquerda ao “mito” que se elegeu ao Planalto na extrema direita. É óbvio que são coisas diferentes, mas o uniforme para se diferenciar era semelhante em termos de narrativa: “nós somos diferentes de tudo isso que está aí”. Alguns eram mesmo, outros apenas se travestiram. O travestido mor está sentado na sede do Executivo Nacional. Atacou partidos, optou pelo PSL no limite legal, governou dois anos sem legenda. Bolsonaro foi mesmo o antipartido. E onde está hoje? No colo de Valdemar, de mãos dadas a Ciro Nogueira, de namorico com Bob Jefferson, dependente do “orçamento secreto” e dizendo, com sorriso cínico no rosto, que sempre foi do Centrão. Foi mesmo, e ainda é: comum.



Mas isso não para por aqui. Deputados descolados de discurso aparentemente progressista também relativizam. Tábata Amaral, por exemplo, foi ao PSB. Por crença ou conveniência? Passou pelo PDT, por crença ou conveniência? A galera que assinou contrato de liberdade de pensamento em diferentes partidos, o fizeram por crença ou conveniência das partes envolvidas no acordo? Isso envolve muita gente que sonha em se vender como diferente. Veja Marina Silva: sua filiação ao PSB em 2013 foi um festival de alucinações terminológicas usadas, simplesmente, para dizer que “o de sempre” era “diferente”. E onde está a Rede? Numa federação com o PSOL contando centavos para sobreviver. A pergunta: a Rede é algo à frente do seu tempo, e por isso sucumbiu? Ou efetivamente era mais do mesmo? Nada me convence que fosse diferente. Talvez, nesse caso, comum e mal-intencionado seja eu mesmo. Pode ser.



Torço para o eleitor entender que política é um bem necessário. Não é mal, tampouco inútil. E como tal, é estratégica, essencial e merecedora de respeito. Isso passa por estudar, compreender, aprender e se sentir parte. Todos nós somos a política, e ela é a nossa cara. Assim, que deixemos de esperar milagres, que abandonemos respostas fáceis, compreendamos movimentos e punamos o que for exagero ou assombro. Que a justiça também se entenda e faça sua parte. Eu puniria Bolsonaro na urna, como já tentei punir em 2018, por ser ele a antítese de tudo o que diz dos partidos e da política, apesar da sinceridade da agenda conservadora podre que prega e não pratica. Mas eu não puniria deputados descolados que assumirem: a política é o resultado coletivo do possível, e flexibilizar não é, necessariamente, corromper. Tábata sugere que engole Lula se Alckmin for vice. Perfeito. Flexibilize. Explique isso ao eleitorado. A política precisa ficar menos refém de sonhos e mais próxima da realidade. Isso não desmerece, tampouco invalida carreiras.



Quanto mais fantasiosa é a adesão a algo, mais refém da fantasia o político será. Se “entrar para a política” em 2018 demandou devaneios, há duas opções: corrigir a alucinação, ou continuar delirando para justificar gestos simples. Exemplos aqui não faltam. Dos termos cunhados por Marina, passando pela cara de pau de Bolsonaro, atravessando a revolta de Alessandro Vieira com os 34 anos do império de Freire no Cidadania e tantas outras invencionices. Corrijam os enleios. E se querem fazer mesmo a “nova política” comecem por sinceridade, didatismo e capacidade de mostrar que “fazer política”, no coletivo, democraticamente, é essencial.


Créditos da imagem: Reprodução redes sociais

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