Voto cristão em disputa

Atualizado: Jun 30

Graziella Testa e Mayra Resende



Religião e Política percorrem uma longa relação nas instituições brasileiras desde o período colonial. Tivemos mais de três séculos de regime de Padroado, onde os poderes políticos e religiosos das colônias eram atribuídos à Coroa Portuguesa, que, por sua vez, estava sujeito à autoridade papal. Somente após a proclamação da República se inicia a inclusão do direito ao exercício de outras expressões religiosas diferentes do Catolicismo, até então considerada a única e oficial religião no país. Já na Constituição de 1988, é notável a garantia da presença institucional católica nas estruturas de assistência social, saúde e educação, iniciadas e estruturadas ao longo dos séculos de colonização. Ainda que tenhamos formalmente instituída a laicidade dos Estado, a presença de instituições, símbolos e lideranças religiosas em espaços políticos nunca deixou de existir por completo no Brasil.



Nas últimas décadas, assistimos a um novo fenômeno religioso com o crescimento do número de evangélicos autodeclarados e o aumento de registros de instituições evangélicas em diversas vertentes. No último Censo (IBGE 2010), o número de variáveis que se refere às denominações evangélicas foi expandido e mantidas as subdivisões em evangélicos de missão, pentecostais (incluindo neopentecostais) e outras denominações não determinadas. O crescimento evangélico no país possui diversos fatores apontados nas últimas décadas por especialistas, como a urbanização, estabelecimento de comunidades de apoio em contextos de poucos recursos estatais, dinamismo e liberdade de estruturação institucional em territórios pouco ou nada ocupados por Igrejas Católicas, dentre outros aspectos que revelam o caráter complexo do crescimento evangélico no Brasil.



Com o aumento de lideranças evangélicas que buscam ampliar suas comunidades inserindo recursos de comunicação como rádio e TV, o movimento que se observa de ocupação de espaços públicos não se restringe aos meios de comunicação. Nos últimos anos, as lideranças evangélicas expandiram sua atuação política para além da indicação de candidatos diretamente ligados às Igrejas, mas também com o apoio de candidaturas que se aproximam dessas lideranças e que se comprometessem com pautas enfatizadas nos discursos sobre a práxis evangélica na política. Isso não acontece da mesma forma em todas as denominações ou grupos, uma vez que os evangélicos não se organizam de forma hierárquica tal qual a Igreja Católica.



Esse processo de adesão a projetos políticos pode ser inclusive seguido ou sacramentado por rituais religiosos, possibilitados por conversões em batismos e adesões imediatas às comunidades religiosas. Os sacramentos seguem como recursos de reconhecimento e apoio religioso na política e, ainda que a autodeclaração não informe a adesão real com crenças e práticas da comunidade religiosa, o apoio eleitoral após batismos e compromissos pactuados com a liderança seguem influenciando na política, tal como ocorre há séculos no Brasil.



Nesse contexto, o presidente Jair Bolsonaro incluiu grupos religiosos na “coalizão não partidária” de apoio que o elegeu em 2018. Apoiaram Bolsonaro os neoliberais, incomodados pelo desenvolvimentismo do governo de Dilma Roussef; os lavajatistas, que viram também na figura de Sérgio Moro a busca pela moralidade pública; os punitivistas, incomodados com os rumos da segurança pública e os altos índices de violência sobretudo urbana; os militares; e, finalmente, os conservadores nos costumes. Se nem todos os evangélicos se alinham à agenda conservadora, alguns dirigentes de denominações alcançam a proeza de arrebanhar esse grupo e identificar lideranças que apoiem suas agendas. A geringonça conservadora de 2018 foi se desfazendo e já perdeu boa parte de seus apoiadores entre neoliberais e lavajatistas. Os militares mantem seu apoio de conveniência. Restam os punitivistas e os conservadores, que muitas vezes se confundem e são diretamente associados aos evangélicos.



Ainda que tenhamos uma religiosidade cristã historicamente marcada pela ênfase de sacramentos como mecanismo institucional de adesão, existem divergências consideráveis de alinhamento político entre diferentes lideranças evangélicas - assim como ocorre na instituição Católica. O voto evangélico, tal como o católico, não observa necessariamente a orientação institucional de uma única liderança, sendo possível imaginar alinhamentos progressistas e conservadores entre católicos e evangélicos. O voto cristão é um fator importante no contexto político brasileiro e complexo justamente pela informalidade de alinhamentos que ocorrem na pragmática da política cotidiana.



Ainda que a maioria de candidatos que se autodenominam cristãos eleitos esteja em partidos de direita, diversas pautas da esquerda não entram em conflito com pautas religiosas, fazendo dos religiosos um importante eleitorado em disputa. O trabalho de base será um dos fatores importantes a serem observados na capacidade de mobilização de votos nas comunidades religiosas cristãs, sejam católicas ou evangélicas. Veremos se batismos e presença em eventos serão suficientes para adesões eleitorais reais. E é por isso que o voto evangélico será buscado e explorado para além dos limites das igrejas que tradicionalmente apoiam abertamente candidaturas.



Ano que vem observaremos candidatos de diferentes perspectivas do espectro político construindo campanhas eleitorais centradas nesse eleitorado, que é mais complexo do que possa ser considerado num primeiro olhar. A esquerda estará disposta a abrir mão da pauta identitária para alcançar esse grupo? Se sim, será suficiente caso ente em rota de coalizão com as autoridades religiosas? O quadro ainda é incerto, mas tudo indica que esse eleitorado será o fiel da balança nas eleições de 2022.

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