Como nasce o oportunismo e mais uma Fake News

Humberto Dantas



Uma das coisas mais interessantes de rodarmos o país em aulas, palestras e trabalhos é que tomamos contato com diversidades impressionantes. Quero juntar aqui uma semana intensa pelo Paraná antes do Dia do Trabalho em seis cidades visitadas, com uma palestra virtual para jovens do sul de Minas Gerais depois do Dia das Mães. Veja que interessante associar informações coletadas nesses dois lugares, e associá-las ao oportunismo estratégico e à criação de Fake News sobre a urna eletrônica. Para que a gente não se perca no raciocínio, vou numerar as situações:



1 – As críticas às urnas eletrônicas são pertinentes todas as vezes que forem feitas sob a forma de observações construtivas que contribuam para a melhoria do processo eleitoral. O problema é que abundam no senso comum todo tipo de idiotice. Respeitemos: a Justiça Eleitoral, que eu tanto critico por diversas razões, faz anos que abre seus ouvidos para tentativas de aprimoramentos. E a despeito de eu considerar e entender que as forças armadas em NADA devam participar de qualquer processo nessa seara, o fato é que a academia e os técnicos de diversos segmentos e setores têm dado grandes contribuições. Foi assim, por exemplo, que nasceu o princípio basilar da biometria na urna, garantindo que em tese ninguém consiga votar pelo eleitor, que não ele mesmo. Esse era o maior de todos os fenômenos capazes de gerar algum tipo de desconfiança. E o cadastramento da biometria precisa ser concluído em todo o território nacional com a máxima urgência. Está vendo alguém no Planalto falar disso?



2 – Um dos ataques em forma de Fake News mais comuns à urna eletrônica está associado ao fato de que eleitores dizem que digitavam um número no equipamento e aparecem fotos e nomes diferentes de seus desejos – ou voto. Pois bem: isso realmente pode acontecer. E dificilmente porque o equipamento é falho, mas sobretudo porque muitos eleitores não conhecem o sistema, não tem afinidade com o processo eleitoral e se deixam levar por informações desencontradas, por vezes falsas, e confusões mentais. Exatamente isso que você está lendo: o problema aqui é a pecinha que opera o sistema, popularmente chamada de cidadão. Vou tentar explicar com um exemplo concreto.



3 – No Paraná, em uma dada cidade, um servidor público municipal me mostrou uma Fake News que eu não conhecia. Na história que me contou, uma pessoa PARANAENSE lamentava não poder votar em uma fulana CATARINENSE para deputada ESTADUAL porque elas eram de estados diferentes. E dizia: “se você fosse candidata a deputada FEDERAL, eu poderia votar em você”. NÃO! Não poderia. Pois é: acredite, tem gente que dissemina esse tipo de idiotice e se esquece, ignora ou viaja no fato de que CADA ESTADO tem sua lista própria de candidatas e candidatos para as eleições de deputado estadual e de deputado federal. O mesmo, obviamente, ocorre para governador e senador, ou seja, o voto nacional é apenas aquele que elege presidente e vice. O resto é tudo em cada estado, separadamente – sem contra as eleições municipais, com candidaturas próprias em cada cidade. Mas isso é basilar demais. Pois é. Quem disse que não desconhecemos o básico? Está incrédulo? Eu também fiquei, com tamanha ignorância. Mas lembre-se: a gente anda tendo que explicar que a Terra é redonda.



4 – A partir de então passei a disseminar a história acima e explicar o tamanho da falsa percepção ou notícia em aulas e palestras para jovens. E com a citada galera do sul de Minas passei a acreditar que isso pode não ser apenas um engano, mas pode se tratar de má fé – ou oportunismo eleitoral. Explico. Quando expus o caso paranaense para falar dos absurdos disseminados, buscando ajudar os jovens a entenderem o sistema, um deles pediu a palavra. Rapaz politizado, filiado a um partido, disse que em 2018 vários amigos dele haviam tentado, em vão, votar num candidato popular em seu grupo, a deputado federal, de SÃO PAULO, que eles admiravam nas redes sociais. E toda a vez que digitavam o número do fulano na urna, aparecia outra foto. E por que isso ocorre? Porque em Minas o número do sujeito era usado por outro candidato do partido, que não o postulante paulista. Perceba: a internet é nacional, muitos grupos de WhatsApp reúnem pessoas de diferentes estados, as emissoras de rádio e de TV de cidades de fronteira podem transmitir o horário eleitoral de outros estados para milhares de lares etc. Resultado: o problema é do eleitor desatento que recebe informação desencontrada às suas expectativas. Notou? A urna apenas está trabalhando, mas tem gente que a opera mal. E parece urgente instruir as pessoas nesse caso específico, para não ficar a impressão de que o problema é o equipamento.



Mas nem tudo parece ser engano, desatenção ou cruzamento de informação. Aqui pode vigorar mesmo o oportunismo deslavado. Primeiro porque quando esses casos vão ganhando dimensão, sendo espalhados e se espraiando pelas redes sociais, principalmente, quem morre de medo de perder a eleição tem a faca e o queijo nas mãos para culpar a urna e desacreditar todo o sistema. É esse o caso de quem ocupa o Planalto e seus seguidores de estimação.




Para além disso, é possível transformar tamanha bizarrice em uma estratégia malandra. Num país que já viu de tudo em matéria de tentativa estranha de burla à democracia, não duvido que um dado partido, especificamente grupelhos instalados dentro de legendas, lancem candidatos a deputado federal com o mesmo número pelo país buscando consolidar a ideia de que um deles, liderança nacional conhecida, sobretudo no mundo virtual, tente puxar votos para seus coleguinhas espalhados pelo território nacional. Subverter o desejo do eleitor com sósias e homônimos é prática velha, que um dia um tal de Enéas executou em São Paulo se passando pelo falecido Dr. Enéas Carneiro – até a calvície e a barba longa o sujeito cultivava. A partir disso, a questão é: será que uma celebridade nacional seria capaz de intencionalmente se organizar com pessoas de diversos estados, numa mesma legenda, buscando votações que gerassem confusão sob um mesmo número? Pois bem: os defensores da liberdade vão dizer que isso é válido. Mas esse coletivo tende a ser a mesmo que esperneia quando a urna (ou o eleitorado) lhe ameaça com resultados diferentes daquilo que mais desejam – a saber, se perpetuarem no poder.



Fonte da imagem: TSE

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